FICS 2025: o pulsar da Terra no grande ecrã
O Festival Internacional de Cinema de Santarém é, antes de mais, um festival da Terra, pela Terra. É um espaço onde a sétima arte desvenda a complexidade do mundo: do trabalho à natureza, da indústria à preservação ambiental, das alterações climáticas às tradições e à ruralidade. São os gestos da terra a ganhar vida no grande ecrã, explorando o que permanece e o que se transforma.
No penúltimo dia — 25 de maio — conheceram-se os vencedores da 18.ª edição, entregues pelo Presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite, pelo Vereador da Cultura, Nuno Domingos e pelos co-diretores do FICS, Rita Correia e Francisco Noras.
Melhor Filme Nacional – Prémio Cacho de Ouro
'Percebes', de Alexandra Ramires e Laura Gonçalves
Palavras do júri: “Tecnicamente bem realizado, o filme assume uma posição que se afasta de possíveis moralismos ou maniqueísmos. Oferece múltiplos aspetos da realidade de uma localidade, sem melodrama e com graça. Partindo de um crustáceo de aparência rochosa invulgar, o documentário mergulha na complexa ligação ao território de trabalhadores de pequenos negócios sazonais, dando-lhes voz e revestindo-os de uma animação ágil, muito digna e alegre. Essa realidade, apesar de muito específica e própria daquele território, não deixa de ter uma matriz universal, fundamentada por uma forte componente visual e uma camada sonora muito rica e origina.”
Melhor Filme Internacional – Prémio Cacho de Ouro
'Koki, Ciao', de Quenton Miller
Palavras do júri: “A memória é uma ficção? Quais são as suas pegadas e o que sugerem? Estas questões emergem no meio de um retrato lúdico do passado e do presente, enjaulados, ecoando o que poderia ter sido a realidade. Delicadamente, a linha entre a memória e o trauma começa a desvanecer-se, à medida que nos deparamos com o ambiente tirânico em que foram criadas. Pela sua forma envolvente e profunda criatividade.”
'Quando a Terra Foge', de Frederico Lobo
Palavras do júri: “O filme equilibra com qualidade a paisagem e as personagens. Destacamos um início bastante atraente a espetadoras e espetadores, que anuncia o que virá a seguir: um filme sem obviedades narrativas e coerente. Ele insere-se numa linhagem muito potente do cinema português, que cruza o tempo histórico e mítico com a força da cultura local (tão simbólica quanto material) numa paisagem rural, misteriosa e imprevisível. Nele encontramos uma forte ligação à natureza e à sua força, e um modo de viver, muito simples e duro, que ainda persiste mas que não sabemos quanto mais tempo irá durar.”
Prémio Especial do Júri – Feira Nacional da Agricultura
'Blueberry Dreams', de Elene Mikaberidze
Palavras do júri: “Neste filme, a agricultura é símbolo de esperança. Uma família é retratada numa fase de mudança e aprendizagem, e um olhar caloroso acompanha os ciclos de crescimento das plantas e das crianças. Em segundo plano, e em contraste com a harmonia desta família, desenrolam-se a guerra, os conflitos territoriais, as políticas de financiamento agrícola e os problemas de escoamento de produção. Pela sensibilidade delicada deste documentário e pela forma como articula o íntimo e o político.”
O Diabo do Entrudo, de Diogo Varela Silva
Pela primeira vez, o FICS instituiu o Prémio do Público, permitindo aos espetadores votar após cada sessão e reforçando a importância do envolvimento direto de quem vive o cinema.
Com esta cerimónia, o FICS 2025 reafirma-se como montra de excelência para obras que brotam da terra e falam ao mundo, iluminando memórias, desafios ambientais e a força transformadora das comunidades rurais.